E então eu vi que vocês dois faziam carinhos e não consegui não ver tudo vermelho, e não é que os meus olhos pegassem fogo, como diz aquela música cujo nome não me lembro agora, é que tudo queimava por dentro e antes fosse azia, antes fosse o excesso de álcool ou, sei lá, uma ilusão, uma fantasia inventada por alguém enquanto eu estivesse louco, louco, louco.
Mas o fato era que todo o mundo percebeu que a minha loucura naquele instante era você. Me imaginei de repente esmurrando-o, mas não, não, eu não sou assim. Queria bater em alguém, não importava quem, mas não quis chamar atenção. E como se toda a raiva se revertesse em tristeza, de tal forma que me abatesse e me fizesse virar de costas e querer sair a pé pelas ruas da cidade, no meio da chuva da madrugada, e parar em um botequim qualquer para chorar as mágoas com desconhecidos, eu quis chorar.
E como se todos aqueles olhos estivessem, por mais bêbado que eu estivesse, me fuzilando, com aquele ar de preocupação e completa absurdez, simplesmente desviei as vistas e pedi um cigarro. Ao diabo com a minha saúde, ao diabo com a vida, essa escrota sem coração, essa que não respeita as paixões. Ao diabo com essa história toda de se apaixonar. Nos desenhos que a fumaça formava no ar eu via meu coração desintegrado sumir, e via um vício renascer. Ao diabo com todos os vícios. Se eu fumei, a culpa era sua, ingrata.
Não, não. Você não tem mesmo nada a ver com todos os meus vícios e a vontade que me vem de estar chapado quando penso em você. Eu sou um tolo que nunca aprende que não há mulher que mereça essa confiança gratuita, esse amor roxo trouxa que nasce desmedido e suga qualquer pensamento coerente. Pergunto à fumaça que agora me rodeia o que fiz para merecer isto, para ser assim, tão imbecil. Ela some e reaparece e some…
Queria que o amor fosse como essa fumaça. E que a cada trago fosse saciado e renovado, e depois sumisse, quando não mais necessário. Um amor assim tão fugaz serve de alguma coisa? Pergunto novamente à fumaça: ela é mais sábia que eu.